quarta-feira, 19 de março de 2014

MANSÃO DA ORFANDADE




“Nenhum ser humano esquece o dia em que o pai morreu. Dizem que é o momento em que nos tornamos adultos e o futuro nos é confiado como chave de uma mansão de que somos enfim herdeiros. Fingimos que assumimos a vida como senhores do nosso destino, mas a orfandade nada nos oferece a não ser a solidão dos que se descobrem entregues à sua sorte.

Vivi essa tragédia  pessoal numa jornada estranha, uma daquelas tardes em que tudo parece suceder ao mesmo tempo, como se Deus jogasse com a nossa desgraça tirando-nos com uma mão o que nos dá com a outra. A vida tem, aliás, destas coisas. Tropeçamos nos anos como se estivéssemos anestesiados, não passamos de sonâmbulos a vaguear por um sonho cujos contornos mal discernimos, perdidos num labirinto tecido pelos mistérios que assombram os caminhos abertos diante de nós. De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita.”

Foi o que se  passou naquele dia em que entrei naquele hospital. Franqueei o átrio como um animal acossado, ansioso e deprimido, vergado pelo futuro que intuía incerto.

Olhei em volta e estranhamente respirei o ambiente sereno que me rodeava. Nessa noite consegui dormir com o meu novo estatuto de ter sido confiado a chave da mansão da minha orfandade.

(adaptado, sem autorização do autor, de “O Homem de Constantinopla”, José Rodrigues dos Santos, edições Gradiva, Setembro de 20139

terça-feira, 11 de março de 2014

TAL PAI, TAL FILHO

 
"Tal pai tal filho"
foto: Rui Rodrigues, Agosto 2013
 
Perdi o meu pai há poucos dias. Aconteceu no dia em que tinha que acontecer e precisamente naquele em que eu achava que o meu pai já não iria aguentar mais. Diz-se brutalmente: diversas falências concorreram para que se apagasse… Foi isso mesmo! Estávamos três bem juntinhos a ele, ao meu pai: a minha mãe – corajosa, forte, cheia de energia, mas não conseguia reter as lágrimas que lhe amaciavam ainda mais a pele da cara; foi um bálsamo que nenhum outro poderia substituir. A minha irmã mais nova apertava com força a mão direita do nosso pai e com a outra mão tentava limpar as lágrimas que escorriam pela cara da nossa mãe Também chorava, mas as lágrimas escorriam-lhe pela cara. A certa altura perguntou-me: achas que já foi? Eu disse que não, que ainda tínhamos o pai vivo, que ainda respirava. Eu estranhamente não consegui chorar!

Eram precisamente 16:48 quando o nosso pai deu o último suspiro: muito ténue, praticamente imperceptível, sem nenhum esgar, sem mudar nada que fosse o nosso pai até àquele último momento. Apertámos muito as nossas mãos às mãos do nosso pai, ainda quentes, ainda vivas para nós porque nos deram o calor de que tanto precisávamos naquele instante. O nosso pai já não nos sentia, mas deixou-nos as mãos quentes. Este calor manteve-se até chegarem os nossos irmãos que não demoraram, mas que chegaram quando o nosso pai já tinha deixado… Ainda sentimos juntos o calor do nosso pai.

Nos dias que se seguiram aos rituais próprios da nossa cultura social e religiosa, com encontros de familiares e amigos, com os mais improváveis reencontros entre pessoas de diversas origens: muitas vieram de longe no espaço, outras (muitas) vieram de longe no tempo. Foi mágico todo este reencontro. Foi provavelmente a maior homenagem que pudemos - todos!- fazer ao nosso pai.

Naquele dia do funeral esteve o nosso pai em todas as suas facetas. Esteve o "Nelo Piqueno" que um dia (diz-se, numa madrugada sabe-se lá de que dia e em que mês) saiu com a mãe Piedade, de Enxerto, Rio Frio (Arcos de Valdevez) em direção a uma terra desconhecida: Santa Cruz do Bispo, Matosinhos. Era um jovem magrinho, "finguelas", que iria entrar na construção civil e que entrada(!): a construção do edifício do Mercado de Matosinhos. Foi operador de grua. Era, vá-se lá saber porquê, o "Manel do Taco". Nunca gostou muito desta alcunha…

Anos mais tarde, ainda com o mesmo patrão mas numa atividade em tudo oposta ao betão e ao ferro, entrou no gás. Distribuiu pelo concelho de Matosinhos durante décadas o Gazcidla; primeiro num triciclo motorizado e depois como motorista de um camião. Era forte e até podia levar duas botijas de 45 quilos cada uma, uma em cada ombro, para fazer chegar o gás à Casa de Chá da Boa Nova, ao Restaurante Garrafão, a tantos outros, uns desaparecidos, outros ainda existentes, e subia por escadas até aos andares de prédios onde os elevadores ainda não eram obrigatórios. O então conhecido "Manel do Gazcidla" não conhecia obstáculos e o seu ginásio para cultivar o corpo era feito com pesos pesados por fora e leves (o gás) por dentro, mas ambos indispensáveis para cozinhar e para aquecer. Fazia este trabalho com uma devoção e paixão que lhe faziam esquecer o peso das botijas. Adorava o contacto com os clientes e trabalhava sem horário.

Vieram os anos setenta e com eles a Revolução. O "Manel do Gazcidla" foi talvez uma das primeiras vítimas das "curas de emagrecimento" das empresas. Um dia o patrão chamou os três motoristas que tinha ao seu serviço e foi direto na conversa: não podia ter mais do que dois motoristas! Ora, como o Manel era o único que já tinha um filho empregado (esse era eu…) seria aquele que menos precisava e por isso estava a escolha feita: estava despedido!

O "Manel da Gazcidla" transformou-se num outro Manel: o "Manel da Maria do Carmo". É que a minha mãe tinha desde há alguns anos o Pomar da Igreja, ali mesmo no Largo da Igreja, na rosa-dos-ventos de onde se parte para ocidente, para oriente e para o progresso. O "Manel da Maria do Carmo" foi o segundo pilar do negócio.

Este Manuel com mais facetas do que alcunhas, foi um homem tímido, respeitado e respeitador. Temido pelos que se julgavam capazes de tudo fazer no Pomar da Igreja quando este, a partir de certa altura do dia passava à versão taberna e a clientela por vezes turbulenta, não era receado pelos que lhe vendiam a pronto ou a crédito pois sabiam que era um homem de contas.

No dia 1 de Março deste ano, na homenagem que todos lhes prestámos no dia do seu funeral, foram todas estas facetas que estiveram representadas na igreja e no cemitério. Vieram amigos de longe e de perto, vieram amigos que deram corpo a todas as fases do meu pai.

Hoje, quando nos sentamos à mesa para almoçar em casa dos nossos pais, o lugar à mesa continua a ser o do pai e até temos cuidado em eliminar as correntes de ar porque – tal Napoleão Bonaparte – era as correntes de ar que o meu pai mais temia.

O meu pai deixou de ter vida física entre nós. Nunca foi personalidade de renome na vida pública, mas todos os nomes por que passou representam uma fase de prestígio e de percurso digno. Para ilustrar lá estiveram todos os que o conheceram e que nunca deixarão de recordar com amizade, com carinho e com muito respeito.

A todos os que estiveram connosco nestes momentos de grande tristeza, mas simultaneamente de alegria interior por nos sabermos acompanhados e em perfeita sintonia e solidariedade,

obrigado!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

PORTO DE ABRIGO - Uma casa para Oecusse


Projecto "Uma Casa para Oecusse"



"Porto"
"Local onde os barcos estão ao abrigo das tempestades ..."
(Ambrose Bierce, 1842-1914)

O conjunto de fotografias que se segue corresponde à colecção exibida na exposição realizada no espaço da Direcção-Geral da Política Regional, Comissão Europeia, em Bruxelas, de 15 de Março a 15 de Maio de 2012, sob o tema "Porto de abrigo". A maior parte das fotografias, já impressas em papel Kodak, foram editadas no formato a cores, 28cm-35cm. Três delas foram apresentadas no formato 50cm-75cm e cinco a preto e branco também 28cm-35cm.

A razão desta  apresentação prende-se com a visita que fiz a Timor-Leste em Maio passado, em particular ao enclave timorense de Oecusse. Aparentemente nada explica esta mensagem, nem a ligação com o tema "Porto de abrigo" nem com o enclave de Oecusse. Mas pareceu-me que  a cidade do Porto poderia ser um "porto de abrigo" para o projecto que  eu gostaria de realizar naquele território timorense.

Sendo um péssimo "homem de negócios", eu dificilmente poria as minhas fotografias à venda, sob que pretexto fosse, para ganhar dinheiro com essa venda para proveito próprio. Mas, na minha opinião, por muito que custe dizê-lo, pedir para quem necessita é muitíssimo mais fácil!!! Conhecemos as causas, defendêmo-las, e vamos em frente!

Eu gostaria de dedicar todas estas fotografias ao esforço de construção de - pelo menos! - três casas para três famílias carenciadas, provavelmente afectadas pela lepra, infelizmente ainda muito activa naquele território timorense. Com a venda destas fotografias proponho a recolha e o destino na totalidade dos fundos conseguidos para este projecto. O objectivo é conseguir o mínimo de 10.000 euros. Parece realizável. O orçamento para uma casa anda à volta dos 3.200 US dólares, ou seja cerca de 3.000 euros.

A base de licitação é a seguinte: 150 Euros para o formato 28-35 e 200 Euros para o formato 50-75, sem moldura. Tal como num leilão clássico, cada foto será adjudicada (de acordo com o respectivo número) a quem oferecer o preço mais elevado durante o período de 2 meses contados a partir do lançamento da campanha no Facebook.

Se conseguir vender todas estas fotografias poderemos atingir o valor necessário para a construção.
A ajuda dos fotógrafos é muitas vezes fundamental para mudar a face do mundo. Com a ajuda da venda destas fotografias ajudaremos a mudar, não o mundo inteiro, mas o mundo de algumas famílias pobres de Oecusse. Vamos tentar porque vale a pena!

Dentro de alguns dias ireis ter a possibilidade de ver este desafio lançado também nas principais redes sociais, em particular no Facebook, esperando desta forma atingir o número máximo de contactos para que seja também atingido o objectivo principal desta campanha.

Conto com a ajuda de todos os que gostam do Porto, das fotografias da nossa cidade e dos que gostam de ver a arte ao serviço de causas muito nobres. Conto acima de tudo com a reacção positiva de todos os que têm vergonha de ver a pobreza aumentar no mundo. No nosso mundo!

A carta que a seguir mostro, da autoria da Irmã Maria da Luz, das Irmãs Franciscanas da Divina Providência em missão no enclave de Oecusse desde 2002, explica praticamente tudo.




Projecto "Uma Casa para o Enclave"

Desde 2002 que as Irmãs Franciscanas da Divina Providência em missão no enclave do Oe-cusse têm desenvolvido um projecto com qual têm conseguido, gota a gota, Uma Casa para o Enclave.
Até ao momento já se ajudaram 124 famílias a ter uma habitação digna e com compartimentação de espaços: 1 quarto para filhas, 1 quarto para filhos, um quarto para casal e uma pequena sala.
As pessoas contempladas com uma destas casas são as famílias mais carenciadas e/ou vítimas da doença da tuberculose ou lepra.
Caros amigos, esta é a casa que podeis ajudar a construir ao comprar uma das fotos que o nosso amigo Dr. Joaquim Rodrigues vos apresenta.
Uma família espera por si e pela sua colaboração para ter uma habitação digna. Como dizia S. Francisco de Assis ao restaurar a Igreja de S. Damião: "quem me der uma pedra, terá uma recompensa". Também nós dizemos, quem comprar uma foto para ajudar uma casa, terá uma recompensa...
Que a Divina Providência vos cumule de graças e dons do Céu, extensivas a toda a vossa família.
Com a nossa profunda gratidão, as Irmãs Franciscanas da Divina Providência, Padiae, Oe-cusse, Timor-Leste. 


Irmã Maria da Luz Henriques (Superiora da Comunidade Missionária) 




FOTOGRAFIAS - PORTO DE ABRIGO


Senhor da Pedra
foto #1
(VENDIDA)


Cais do Ouro
foto #2


Barra do Douro
foto #3


Barra do Douro
foto #4


Cais da Ribeira
foto #5
(VENDIDA)


Cais da Ribeira
foto #6
(VENDIDA)


Cais da Ribeira
foto #7



Cais da Ribeira
foto #8


Cais da Ribeira
foto #9
(VENDIDA)


Cais de Gaia
foto #10
(50cmx70cm)




Casario - (Gaia)
foto #11
(VENDIDA)


Barcos Rabelos
foto #12
(VENDIDA)


Barcos Rabelos
foto #13
(VENDIDA)


Muro dos bacalhoeiros
(preto/branco)
foto #14

Cais do Ouro
(preto/branco)
foto #15

Cantareira
(preto/branco)
foto #16

Barcos Rabelos
(preto/branco)
foto #17
(VENDIDA)



Cais da Ribeira
(preto/branco)
foto #18
(VENDIDA)


Neblina
foto #19
(VENDIDA)

Barra do Douro
foto #20



Cais da Meia Laranja
foto #21
(VENDIDA)



Ponte da Arrábida
foto #22

Ponte da Arrábida
foto #23


Ponte da Arrábida
(50cmx70cm)
foto #24

Ponte de D. Luís I
foto #25


Ponte de D. Luís I
foto #26

Ponte de D. Luís I
foto #27

Ponte de D. Luís I
foto #28

Ponte do Freixo
foto #29

Palácio do Freixo
foto #30


Palácio do Freixo
foto #31


Pérgola da Foz
foto #32
(VENDIDA)

Barcos Rabelos
foto #33

Barcos Rabelos
foto #34
(VENDIDA)

Barcos Rabelos
foto #35

Barcos Rabelos
foto #36
(VENDIDA)

Barcos Rabelos
foto #37
(VENDIDA)

Barcos Rabelos
(50cmx70cm)
foto #38
(VENDIDA)

Barcos Rabelos
foto #39
(VENDIDA)


Ribeira
foto #40

Ribeira
foto #41



Serra do Pilar
foto #42


foto #43

Importante: Todos os direitos reservados para o autor. Nenhuma utilização ou reprodução, sob nenhuma forma, são autorizadas sem indicação expressa do autor.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Porto de abrigo - exposição de fotografias

Comissão Europeia
Direcção-Geral da Política Regional
rue Père de Deken, 23
1049 Bruxelles
de 15.3 a 15.4.2012

"Porto de abrigo"
Cidade importante da Gallaecia histórica e esteio fundamental da nação em construção, o Porto criou-se como que a si mesmo, pelo talento dos seus mesteirais, a perspicácia dos seus negociantes, a afeição à urbe e às suas prerrogativas e um provado apego à liberdade, que lhe permitiu, por exemplo, a ousadia de, durante quase três séculos, impedir à nobreza a estadia por mais de 3 noites e de entrar armada intra-muros e ainda de receber em herança um coração de rei reconhecido, ainda hoje conservado.
É muito mais espelho que capital de uma região Norte diversa, com a qual se identifica e de que depende, do viçoso e alegre Minho aos planaltos e montanhas do Trás-os-Montes agreste e genuíno. É ainda o desfecho, apoteótico por sinal, de um rio Douro que, desde Urbión (Soria) vem de escantilhão entre ravinas, a esmigalhar pedra e terra, a aleitar famosas vinhas, e de peito aberto se lança ao Atlântico, em barra tão importante quanto trágica.
É ainda por isso que tripeiro (alcunha antiga dos seus habitantes) “se articula rijamente” com três pês (parafraseando o escritor Ramalho Ortigão): o da própria palavra, o de Porto e o de Portugal.
E desta nossa cidade, o Joaquim Silva Rodrigues, traz-nos um perfume, em jeito de convite, com imagens variadas cujo fio de condutor é o tal aferro, a tal maneira própria que, talvez por ser obstinada na sua identidade, é acolhedora e generosa para com quem a visita.
(autor do texto: Joaquim Pinto da Silva)



"Porto
port de refuge - port d'accueil"
Ville importante de la Gallaecia historique et pilier de la nation en construction, la ville de Porto naquit comme de par elle-même, grâce au talent de ses maîtres artisans, de la perspicacité de ses marchands, de son attachement aux gens de la ville et leurs prérogatives, ainsi qu'à une passion flagrante pour la liberté, qui lui valut, entre autres, l'audace d'interdire à la noblesse, pendant presque trois siècles, de séjourner dans la ville plus de trois nuits, ainsi que d'y pénétrer armée. Cela lui valut également de recevoir en héritage la relique d'un cœur de roi.
Bien plus que la capitale d'une région Nord diverse à laquelle elle s'identifie et dont elle dépend, la ville de Porto est plutôt le reflet du luxuriant et joyeux "Minho" et des montagnes et plateaux de "Trás-os-Montes" rural et authentique. Elle est aussi l'apothéose du fleuve Douro qui, dès Urbión (Soria) se précipite de ravin en ravin, émiette terre et pierres, allaite de fameux vignobles et se jette à bras-le-corps dans l'Atlantique par son estuaire aussi important que tragique. C'est pour cela aussi que le mot "tripeiro" (ancien surnom de ses habitants) est fortement articulé autour de 3 "P" (en paraphrasant l'écrivain Ramalho Ortigão): celui de "Parole", celui de "Porto" et celui de "Portugal".
Joaquim Silva Rodrigues nous apporte un parfum de cette ville, en guise d'invitation, avec des images variées dont le fil conducteur est cette pugnacité, cette façon d'être qui, peut-être à force d'opiniâtreté, est accueillante et généreuse envers ceux qui la visitent.
(Tradução: Rosalina Bernon)